sexta-feira, 10 de maio de 2013

Solidariedade de classe e horóscopo


 para Barbara Abramo


"O horóscopo disse para eu não me preocupar com meus filhos hoje e dedicar mais tempo à minha esposa." disse em tom quase melancólico perguntando logo em seguida: "O que será que isso quer dizer?"
"Que você anda lendo um horóscopo machista e conservador." ela respondeu.
"Não dizia 'esposa' literalmente. Dizia 'parceiro' ou algo assim! Peraí! Deixa eu pegar!"
Do outro lado da linha ela ouvia o remexer das folhas do jornal.
"Vai ficar com os dedos todos pretos!" ela pensou. Ele voltou.
"Por que ainda imprimem jornais? Fiquei com a mão toda suja!" reclamou.
Ela riu alto.
"O que foi?" ele perguntou.
"Nada... E então?"
"Então! Aqui! Diz 'parceiro(a)', sabe? Com o 'a' entre parênteses?"
"Sei... É pra ficar bem genérico, é claro!" ela disse.
"É... Mas o que significa?"
"Como assim?"
"Não me preocupar com os filhos e me dedicar à minha parceira?"
"É... Dar um tempo na criançada e tentar reacender a chama!" ela argumentou.
"Mas eu não sou casado, muito menos tenho filhos!" ele notou.
"E dai?"
"E dai que esse horóscopo é restrito a algumas pessoas apenas."
"E dai?"
"Ué! O que aconteceu com o bom e velho horóscopo genérico que contemplava todas as classes?"
"Você está falando sério?" ela desacreditou.
"É claro! O horóscopo era a última ponta de igualdade nesse mundo que unia todas as classes, todos os gêneros e, principalmente, todo os signos!" falou em tom de discurso.
"E agora?" ela ironizou, ele não percebeu.
"E agora eles vêm me falar de filhos e parceiros..."
"Um absurdo!" ela brincou.
"De verdade!" pausou "E essa história de Vênus em Gêmeos?"
"O que tem?" ela perguntou.
"Tá dizendo que meu dia começa com Vênus em Gêmeos. O que isso significa?" ele soava irritado.
"Eu não sei! Deixa eu ver!"
"Você tá com o jornal ai?" indagou e logo atentou "Cuidado pra não sujar os dedos!"
"Eu vejo na internet."
"Não acredito que você paga pelo conteúdo digital!" ele soava mais irritado.
"Você assina o jornal e vem querer me criticar! Além de mais caro é completamente antiecológico!"
"Eu não assino!" pausa "Roubo do serviço!" outra pausa "Mas só a parte de cultura..."
"Você rouba?" ela disse rindo de espanto.
"Digamos que é uma retaliação quanto à exploração dos meus serviços."
"Você rouba mais alguma coisa?"
"Não que eu me lembre!" ele disse sem se preocupar.
"Não que você se lembre?" ela ria alto.
"Sei lá, uns papéis aqui, um elásticos ali..."
"O suplemento de cultura do jornal..."
"Também, mas esse eles não ligam mesmo!"
"Entendi..." ela parecia sincera.
"Então?" ele perguntou.
"Então o quê?" ela replicou.
"Vênus em Gêmeos..."
"Sim! Estou tentando achar... É complicado de encontrar... Achei!"
"E ai?"
 "Parceiro(a) com o 'a' entre parênteses..." ela riu.
"Não falei? E Vênus?" ele perguntou.
"Estranho..."
"O quê?"
"Meu signo também fala de Vênus em Gêmeos." ela respondeu.
"Meu Deus! Esses caras não têm inspiração nem pra isso!"
"Talvez a sua sonhada igualdade horoscópica não tenha morrido por completo..."
"É... Se ainda fizesse algum sentido." ele disse fingindo-se desapontado.
"Verdade..." ela concordou e continuou "Posso te falar uma coisa?"
"Claro!" ele disse.
"A senha que eu uso pra acessar o conteúdo do jornal é da minha chefe! Acho que isso é roubo também, não?"
"Claro que é, mas como disse, não é nada que se condene considerando o quanto a sua chefe rouba de você em horas trabalhadas."
"É, ainda assim me sinto culpada!"
"Não se sinta!" ele a consolou.
"Ela nem lê o jornal!" desabafou.
"Pois é! Você pelo menos faz proveito dele!" ele argumentou.
"É mesmo! Você quer a senha?"
"Com certeza!"
"Assim você não precisa mais roubar o jornal físico!"
"Por que eu deixaria de fazer isso?"
"Ué! Se tem o digital, pra que pegar o físico?"
"Você não entende! É uma questão de classe! Não faço isso pelo jornal ou por necessidade! Faço por todos os camaradas que morreram nas máquinas banhados pelo sangue e suor dos outros trabalhadores!"
"Você nem trabalha com máquinas!" ela disse um pouco indignada.
"Não quer dizer nada!"
"Sei..."
"Mostre um pouco de solidariedade de classe e passe logo essa senha, vai!"
"Nós nem temos a mesma profissão pra termos solidariedade de classe!"
"Mas nós dois temos chefes!" ele apontou.
"Bom..." ela ficou em silêncio.
"E Vênus está em Gêmeos pra nós hoje!" ele lembrou.
"Verdade! Anote ai..."

quinta-feira, 7 de março de 2013

Por que tiramos tantas fotos de nós mesmos?

Photo Booth Self-Portrait, ca. 1963 - Andy Warhol
Você alguma vez já se perguntou quantas fotos tirou de si mesmo e postou na internet? Quantas dessas você escolheu meticulosamente levando em conta o sorriso, o cabelo ou aquele papo a mais que nem a língua encostada no céu da boca salvou?
Por que fazemos isso? Qual é a necessidade em compartilhar com nossos contatos as nossas conquistas, nossa comida, nossa vida e nossas intimidades?
Será vaidade, insegurança ou simplesmente automatismo?
A fotografia é uma técnica criada em fins do Séc. XIX, mas que ganhou maior repercussão ao longo do Séc. XX e uma foto é, sem dúvida, um registo. Seja ele afetivo ou artístico, é ainda assim um registro que nos conta alguma história. Seja ela fotojornalística ou experimental, é a cabeça de alguém funcionando em função de dizer algo àquele que verá o registro posteriormente. Não há fotografia imparcial. Há sempre o olhar de quem a tira. Há ali toda uma visão de mundo resumida a um clique independentemente se esse for amador ou profissional.
Com o advento da fotografia digital na virada para o nosso século somando-se ao barateamento das novas tecnologias e à difusão das redes sociais, a vida do típico homem moderno ocidental (o que inclui chineses e japoneses que copiam tal modo de vida há décadas) virou um turbilhão de imagens compartilhadas a todo instante e em todo lugar.
Pra que esperar um dia se já posso mostrar meu cabelo novo aos meus amigos assim que saio do cabeleireiro? Por que mostrar mais tarde se já posso compartilhar minhas conquistas instantaneamente? Qual é a graça em viajar para a Europa (ou América do Sul que está super em voga) se não posso compartilhar todas as trezentas e cinquenta e seis fotos de uma vez?
Lá nos anos 1970, quando as câmeras ainda eram de filme, uma teórica da fotografia já alertava para o  fato de que parecia "decididamente anormal viajar por prazer sem levar uma câmera" já que as fotos ofereciam "provas incontestáveis de que a viagem se realizou [...] de que houve diversão" ou seja "as fotos documentam sequências de consumo realizadas longe dos olhos da família, dos amigos, dos vizinhos." Não é à toa que tiramos fotos do cabelo cortado, da comida no restaurante ou das viagens feitas! Mostramos o quanto estamos bonitos, de bem com tudo e satisfeitos com a vida e se deixamos de fazê-lo por um tempo há a possibilidade de algumas pessoas perguntarem se estamos bem já que andamos muito sumidos das redes sociais. Nunca estivemos tão sumidos e tão aparecidos.
"A necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados." O hoje de Susan Sontag descrito em seu livro "Sobre Fotografia" é o hoje da década de 1970. Quarenta anos no passado, muito antes do celular ou do Instagram
Ela completa: "As sociedades industriais transformaram seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental."
Até que ponto estamos compartilhando um momento feliz em nossas vidas ou caindo no automatismo ao mantermos os mesmos paradigmas de consumo desenfreado e até mesmo patológico?
Antes de tirar uma foto (ou quarenta e cinco) diante do espelho esbanjando excelente forma física (ou não) fruto de uma óbvia construção social, não deveríamos pensar minimamente no sentido daquilo?
Não é uma questão de parar de tirar fotos! O registo foi, é e sempre será importante, no entanto, enquadrar-se no automatismo social do consumo foi, é e ainda será por muito tempo mera ferramenta de alienação e manobra. Logo, o clique que vinha vinha rodeado de significado artístico ou afetivo acaba por se tornar vazio, resumindo assim a visão de mundo daquele que o fez.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Relato de um sonho

"Moça, não me leve a mal, mas tive um sonho e você estava nele.
Era aniversário de São Paulo, mas a galera comemorava como se fosse Carnaval e você estava naquele programa "Mulheres Ricas".
Você namorava um cara alto, louro e sarado que nunca te tratava bem, mas ainda assim você gostava dele (coisa de algumas mulheres, vai entender!)
Nesse sonho a gente não se conhecia, mas a gente se encontrava num bar (acho que era uma cantina italiana) e você estava com gente famosa enquanto eu comia uma sopa sozinho num canto, mas a gente não parava de se olhar - como se a gente soubesse que fora do sonho a gente se conhecia.
No final você foi embora cercada por seguranças e eu fiquei lá tomando minha sopa. Dai eu acordei! Bizarro, né?
Só estou te escrevendo para deixar registrado, afinal os sonhos sempre somem depois de um tempo acordado.

Beijos por ai!"

Algum terapeuta pra me ajudar?

Ouvindo Caetano com  "A Tua Presença Morena"

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Da precisância

Preciso
Preciso urgentemente voltar a fotografar
Preciso urgentemente voltar a escrever

preciso

Preciso urgentemente voltar ao estado em que as coisas
[divinas coisas]
são sublimes
sem laços
sem amarras
só coisas
que me [nos] alegram

Preciso ver mais o mundo
sair por ai
Preciso ver, ouvir, sentir

o sentido das coisas

preciso

E nessa precisância toda

preciso parar de reclamar. 



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012: Um ano em fotos

Doze fotos que dizem mais que mil palavras sobre esse ano em que visitei alguns cantinhos do mundo, me dei bem, me dei mal e por fim completei um quarto de século. Todas as fotos foram tiradas por mim com exceção da foto de Junho em que eu apareço junto de alguns dos meus queridos alunos.

Richmond, Janeiro, 2012

Washington, DC, Fevereiro, 2012
Nova York, Março, 2012
Richmond, Abril, 2012
São Francisco, Maio, 2012
Richmond, Junho, 2012
Berlim, Julho, 2012
Londres, Agosto, 2012
Paris, Setembro, 2012
São Paulo, Outubro, 2012
São Paulo, Novembro, 2012
São Paulo, Dezembro, 2012

 E o tal do mundo não se acabou. Muitas outras fotos descreveriam o ano e essas são só algumas. Há muitas outras espalhadas na minha página do Flickr e pelos facebooks da vida.

Feliz ano novo a todos e até o ano que vem!

Ouvindo The Strokes com "I'll Try Anything Once"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dos jovens

Fomos apresentados por um amigo em comum. Estávamos todos num bar e quando eu vi aqueles olhos grandes e aqueles cabelos, eu quase perdi o meu fôlego. Dizem que a paixão bate sem aviso prévio. Chega descontrolada e nunca é igual à outra. Você já pode ter se apaixonado, mas com cada pessoa é diferente e foi assim com ela. Tentando não parecer um bobo, fiquei na minha, posando de calado, coisa que meus amigos estranharam, mas ela não porque pouco me conhecia.
"Você vai gostar dela, mas cuidado que acho que ela tem namorado." meu amigo disse.
"Besteira! Estou tranquilo." tinha falado uns dias antes de topar com aquele sorriso que me calou.
"Ela é mais velha também!" meu amigo continuou.
"Já falei que não estou preocupado!" eu disse sem me dar conta do futuro que me aguardava.
Falamos pouco naquele dia e desconfio que não deixei impressão alguma. Coisa estranha, eu pensei, logo eu que sempre que caía nessa de amor logo racionalizava tudo para que a queda não fosse tão dura.
Ao final da noite, meu amigo veio "E ai? Gostou dela?"
"De quem? Sua amiga? É... Simpática!"
"Acho que ela gostou de você!" ele disse meio que brincando.
"Eu mal falei com ela!" retruquei.
"Ela pediu pra chamar você da próxima vez que sairmos!"
Dei um sorriso sem graça e brinquei que estava com sorte, mas por dentro era só palpitação.
Encontramo-nos de novo numa outra ocasião e ela veio sentar do meu lado. Falamos de muita coisa: Cinema, literatura, futebol, relacionamentos passados e até das tatuagens que eu nunca fiz e das dela que eram discretamente escondidas pela alça do vestido. No final da noite, quase todos já tinham ido embora, mas nós ficamos ali no canto como dois amigos que não se viam há muito tempo. Foi pouca ou quase nula a estratégia. Num momento a gente se olhou e sabíamos o que devíamos fazer.
E foi tudo tão puro e tão intenso, mas ainda éramos jovens.


Cena de "Blue Valentine" (2010)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Da destruição

Não foi por maldade nem por bondade. Foi só a vida que disse pra gente ir em frente. Não em frente no sentido evolutivo, mas em frente no sentido de qualquer lado, qualquer um, menos para o mesmo de que viemos. Não precisa haver avanço, mas o retrocesso é condenável. Que vá para o lado como um pequeno siri ou para frente como um faminto tubarão, mas nunca pra trás pois é lá que encontraremos a destruição causada por nós mesmos.
Aprender com os erros e procurar futilmente não mais cometê-los.
É mais ou menos assim que funciona a vida.

"Angelus Novus" de Paul Klee


Ouvindo "I Found A Reason" com Cat Power.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando as folhas caem

Lá estava eu esperando para ser entrevistado. Uma menina de uns seis anos estava sentada à minha frente.
"Duvido você adivinhar o meu nome!" ela me disse e antes que eu pedisse ela deu a dica:
"Começa com I."
"Iara!" mandei certeiro.
"Não!" ela respondeu rapidamente.
"Ingrid?" chutei.
"Nãããão!" disse zombando de mim.
"Não sei! Dá outra dica!" eu pedi impaciente.
"Começa com I e termina com A."
"Iracema, acertei?" eu disse sabendo que tinha errado.
"Não! É Isabela!" ela respondeu antes que eu tentasse mais.
"Ah! É mesmo..." e eu voltei a tamborilar os dedos no braço do sofá.
"E o seu nome?" ela perguntou.
"Caio." falei sem dar tempo para ela querer adivinhar.
"Tenho um amigo que se chama Caio..." ela disse pensativa.
"É um nome muito comum hoje em dia." eu expliquei.
Ela ficou me olhando meio que sem entender muito bem o que eu tinha dito e quebrou o silêncio:
"Vem da natureza, né?"
"O quê? O nome? Não sei..." eu disse.
"Claro que não! Menina doida!" pensei.
"Acho que sim! Veja bem, as folhas caem..." e ficou lá pensando.
"É... Pode ser..." eu disse em tom duvidoso.
"Vem da natureza sim! Olha! As folhas caem e elas vêm da natureza!" disse tomando seu argumento como fato.
Antes de ser chamado eu ainda tive tempo de responder à minha nova amiga:
"É! Com certeza!"
Respondi convicto, afinal, as folhas realmente caem.

Bebê na Leicester Square, Londres, 2012

Ouvindo "Tempo de Estio" do Caetano.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre direção de fotografia, Walter Carvalho e algumas derrotas diárias...

Ontem fui ao Museu de Imagem e Som (MIS) e tive o prazer de presenciar o depoimento de Walter Carvalho sobre os filmes que marcaram sua vida. Ele é um dos grandes diretores de fotografia do Brasil, participando de filmes como "Central do Brasil", "Abril Despedaçado", "A Febre do Rato" entre muitos outros.
Ver aquele senhor de seus sessenta e cinco anos falando de suas referências numa humildade de amador foi uma experiência e tanto. A sala estava vazia, umas cinco pessoas no pequeno auditório mais os funcionários que foram convocados para dar corpo à plateia e outros funcionários que ficavam furiosos sempre que alguém decidia sentar no caminho da câmera que apontava para aquele senhor paraibano de óculos redondos que discorria sobre os filmes que mais lhe marcaram.
"Meu contato com o cinema foi pela pessoas, não pelo cinema em si." ele começava seu depoimento que num primeiro momento parecia não ser permitido que fizéssemos perguntas. 
"O primeiro filme que vi foi num livro." referindo-se ao clássico curta francês "Le ballon rouge" de 1956 que estava num livro que foi dado pelo seu irmão Vladimir Carvalho que já era cineasta.
Depois de contar seu contato com o Cinema Novo e de como foi entrando no ramo, ele soltou aquilo que eu mais esperava "Vocês não querem perguntar nada?" mas todo mundo ficou calado e ele seguiu com seu depoimento. "Merda! Devia ter perguntado alguma coisa, mas o quê?" pensei comigo.
Um cabeludinho finalmente perguntou alguma coisa e depois uma mulher também e quando o evento já ia se dando por encerrado ele perguntou "Mas vocês não querem saber mais nada?" como que querendo fazer valer a viagem do Rio até São Paulo, como que não querendo deixar aquele momento passar em vão. Foi dai que me prontifiquei e perguntei quem eram suas referências quando o assunto era direção de fotografia já que até ali ele só havia citado filmes e diretores. O velho deu um sorriso e começou a citar diretores japoneses e outros grandes nomes como Gordon Willis, diretor de fotografia de "O Poderoso Chefão" e seus ídolos máximos Sven Nykvist e Christopher Doyle que respectivamente fizeram a fotografia de "Gritos e Sussurros" de Bergman e "Amor à flor da pele" de Wong Kar-Wai, dois filmes que deixam qualquer amante de cinema num êxtase indescritível muito em conta, é claro, por sua fotografia. "Esses caras são o demônio!" disse.
Ele também contou de como foi quando conversou com Nykvist antes e depois de uma sessão de "Central do Brasil" na Macedônia e que após a exibição do filme eles conversavam como se fossem grandes amigos justamente por se entenderem no quesito fotografia. Ele então começou a discorrer sobre o que ele achava da fotografia em si alegando que ele gostava de fazer com que o objeto fotografado deixasse se sê-lo e se tornasse outra coisa, além daquilo. Falava tudo aquilo e me olhava como se soubesse que talvez fosse aquilo que eu precisasse ouvir naquela hora, como aquele político que olha nos seus olhos no horário político, aquela pessoa recitando aquele seu poema predileto ou aquela música que começa a tocar na hora certa. Ao final, fui cumprimentá-lo ao que ele devolveu com um sorriso, um aperto de mão e um "Eu que agradeço sua presença!" e fui pegar meu ônibus em direção ao Banco do Brasil que por algum motivo mantém minha conta bloqueada sem razão aparente. Perdi minha tarde no banco sem que o problema fosse resolvido e por conta disso não consegui enviar pelo correio uma série de fotos para um concurso que ia participar. De noite ainda fui para um curso de "retratos estranhos" que estou fazendo no Sesc aqui perto de casa, mas depois de ouvir os grandes, a gente sempre se sente um pouco mais pequeno, num bom sentido é claro.
Hora de revisitar os clássicos!

Uma das fotos da série que não consegui enviar

Um abraço e até breve!

Ouvindo a antiga "Love, Love, Love" do Caetano.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre futebol e a vida moderna


Uma vez em uma entrevista, o então técnico do Corinthians e agora técnico da seleção, Mano Menezes, disse uma coisa que ficou na minha cabeça por um tempo. Era uma desculpa esfarrapada para justificar as derrotas do Coringão que tinha acabado de ganhar o Paulistão e a Copa do Brasil, mas não ia lá mil maravilhas no Campeonato Brasileiro, culpa da desestruturação no time devido à janela de compra e venda de jogadores. A questão é que o comandante havia dito algo muito simples: "Quanto mais o time perde, mais próximo ele está da vitória!" e ainda completou que isso servia para o contrário e que nunca técnico e jogadores (e em consequência torcedores) deveriam se acostumar com uma série de vitórias já que a inevitável derrota poderia vir a qualquer momento. Era nessa mesma época em que o Palmeiras ia de vento em popa no campeonato, mas depois de uma bonanza mal aproveitada, começou a desperdiçar chances de vitória e acabou em quinto lugar ficando fora daquela fatídica Libertadores em que o Corinthians foi eliminado pelo Flamengo em pleno Pacaembu lotado. Quem me conhece sabe que futebol não é minha praia. Nunca foi, mas é sempre bom saber de uma ou outra coisa que se passa no meio futebolístico só pra não ficar de fora daquela conversa de bar ou daquele papo de elevador.
Fato é que as palavras do nosso grande técnico ainda ecoam na minha mente sempre que me deparo com problemas diversos na vida que parecem se canalizar num mesmo período. É comum ter um dia terrível e ainda chegar em casa e escorregar no banheiro ao sair do chuveiro ou levar um pé na bunda, perder o emprego e pegar um ônibus lotado tudo no mesmo dia. Gostamos de culpar o carma e dizer que o Universo conspira contra nós. Isso é comum e essa fase é sempre necessária: indignar-se com tudo e todos, mas depois usar os destroços para a reconstrução. Ora, nada mais certo que levantar do tombo, encará-lo com certa ironia e lembrar que se as derrotas são muitas é porque a vitória está para chegar, já diria nosso Mano.
Ilusão também achar que a vida é um campeonato de futebol e que tudo se resume a vitórias, derrotas e os rejeitados empates, mas não seria tão engraçado viver se não fossem as metáforas para nos ajudar  a entender (nem que seja um tiquinho) essa coisa toda da vida moderna que nos aflige.

Grande abraço e bom final de semana pra você!

PS: Um dos motivos que me fez escrever esse texto foi a tragédia acontecida na escola da minha amiga Stefanie que chegou para trabalhar num belo dia e encontrou o prédio em que trabalha consumido por um incêndio. Força, Teté!

Esperando - Berlim, 2012


Ouvindo Regina Spektor com "One More Time With Feeling"