quinta-feira, 24 de maio de 2012

O homem de bailarina e a saúde norte-americana

Acordo cedo depois de uma noite de insônia. O que afinal me impediu de dormir direito? Ansiedade com os projetos futuros? Preocupações financeiras? Afetivas? Acadêmicas?
Acordei com sono, mas com a promessa de um café forte que me manteria acordado durante a aula em que discutiríamos o governo Nixon e o filme "Rede de Intrigas" (1976) que aborda os jogos sujos de poder dentro das grandes corporações de TV em busca de audiência. A discussão e o café deixaram a desejar, mas o roteiro cheio de reviravoltas e as atuações excepcionais do filme de Sidney Lumet me mantiveram acordado, no entanto o que me chamou atenção foi outra coisa. Enquanto esperava meu café, assistia ao jornal matinal da NBC que faz a Ana Maria Braga parecer a seriedade do jornalismo em pessoa. Todos aqueles repórteres bem vestidos falando de assuntos completamente desnecessários e entrevistando os mais variados tipos sem o mínimo nexo. É tão ruim que chega a ser engraçado e não me surpreendi ao ver um homem de meia-idade tirando fotos dele mesmo vestindo apenas uma saia rosa de bailarina. "Mais uma besteira!" pensei, mas ao ver as fotos que passavam na tela enquanto o fotógrafo e a mulher eram entrevistados, percebi uma qualidade técnica tanto de composição quanto tratamento de imagem e por algum motivo aquele ponto rosa adornando o tiozinho gordinho no meio de paisagens inusitadas me chamou a atenção.
  
Four Trees ©2012 Bob Carey

Corn Field ©2012 Bob Carey


O tal gordinho se chama Bob Carey, um fotógrafo que desde 2003, quando descobriu que a mulher tinha câncer de mama, resolveu sair pelos Estados Unidos e pelo mundo fazendo autorretratos pouco convencionais como uma terapia que, em sua opinião, explora a fragilidade humana. É através desse humor sutil (ou escrachado?) que ele tira sorrisos das pacientes que, como sua mulher, lutam contra o câncer. Além disso, o Projeto Tutu (como é chamada a saia das bailarinas) arrecada fundos através do site para ajudar mulheres que não tem condições de pagar um plano de saúde que ajude a tratar a doença. Inocentemente, essa empreitada coloca em questão o sistema de saúde norte-americano que é completamente privado e deixa os cidadãos à mercê de planos caríssimos que às vezes não cobrem quase nada. "Não sei como ainda tem tanta gente viva nesse país?" brinquei uma vez com a mulher que cuida da minha papelada aqui na VCU depois de entregar meus documentos provando que tinha tomado todas as minhas vacinas que, falem o que quiserem do SUS, não peguei um centavo para tomá-las enquanto que na "América" qualquer injeçãozinha não sai por menos de US$50 (R$100). E essa mentalidade vai do hospital à Universidade. Recentemente, os republicanos vêm tentando aumentar os valores das faculdade (seja pública ou privada, a Universidade aqui é paga) e Mr. Obama está desesperado lutando contra isso pois afinal não quer perder os votos do jovens para as eleições de outubro.
Não me surpreendo com a indignação da classe média brasileira de ter de pagar tantos impostos e não ver retorno real e imediato, mas me surpreendo com a passividade com que muitos norte-americanos veem seus impostos serem catapultados para objetivos belicosos em nome da "liberdade" dos povos do oriente médio e não para terem um sistema de saúde e educacional gratuito ou pelo menos mais barato. Sem falar que por aqui quanto mais rico for o cidadão, menos ele paga imposto, coisa que os ricaços do Brasil de meu Deus tentam incorporar a todo custo justamente por interesses próprios.
Não quero aqui falar mal dos EUA e deixar a entender que na nossa República Federativa está tudo uma maravilha, mas sim argumentar que cada país tem suas vantagens e desvantagens e não é possível colocar na balança quem está melhor ou pior pois isso só cai numa discussão simplista que fica limitada aos almoços de domingo com aquele tio que ainda acha que no tempo da ditadura é que era bom.
De qualquer modo, é de uma paradoxo descabido ver o Brasilsão como a sexta maior economia do mundo enfrentando problemas que perduram por séculos, mas é também de uma tristeza só saber que um cidadão tirando fotos vestido de bailarina ajuda mais as mulheres com câncer de mama do seu país do que o próprio governo, mas nesse assunto, é claro, os entrevistadores da NBC não se atreveram a tocar e, se bobear, eles nem perceberam pois a mentalidade do "pagar pra ter" está tão impregnada na população que a maioria sequer a questiona e não há fraqueza maior de um povo do que o silêncio apático.


Parking Lot ©2012 Bob Carey

Mais fotos no site do projeto.

 Ouvindo David Bowie com "Young Americans"

terça-feira, 22 de maio de 2012

Garota, eu fui pra Califórnia...

Meio furada foi a viagem. Não a viagem em si, mas o pacote! Já desconfiei no começo pois o preço estava muito abaixo do normal. Brinquei com os amigos que no meio do tour iria aparecer um cara maluco com uma máscara e uma motosserra ou então caipiras geneticamente modificados pelos testes nucleares do governo no deserto sabotariam nosso ônibus e nos caçariam um por um. Nada disso aconteceu, mas também não foi mil maravilhas. A agência de viagem era chinesa e todo o trajeto era bilíngue. Nada contra os chineses! Alguns muito simpáticos! Tinha um que sempre me cumprimentava no elevador (ele podia estar muito bem me mandando à merda, mas eu sempre respondia com um sorriso). O problema é que todos viajavam com aquele objetivo de colocar o pé num canto, tirar um milhão de fotos, voltar pro ônibus, viajar mais dez horas, colocar o pé em outro canto por quinze minutos, voltar pro busão, voltar pro hotel, dormir e no outro dia a mesma coisa.
Isso me lembrou uma vez em que ouvi falar desses pacotes relâmpagos de turismo pela Europa. Em uma semana você visita uma porrada de cidades e volta cheio de fotos ao lado da Torre Eiffel e lembrancinhas pra tia Fátima no Brasil. A verdade é que nunca fui de viajar assim. Além dos pontos turísticos, também gosto de sentir a cidade, comer no restaurante onde os habitantes vão na hora do almoço em plena quarta-feira ou o melhor bar pro happy hour, essas coisas. 
Las Vegas, a cidade que menos me apeteceu, foi onde ficamos mais tempo. Todas aquelas máquinas de jogo, aquele povo fumando desesperado, todo mundo querendo viver uma vida no melhor estilo "Se Beber Não Case" e um pouco mais. Fiquei meio sufocado naquela cidade erguida no meio do deserto cheia de luzes  vibrantes e coloridas. Como estava em grupo grande, seguia as decisões da maioria e não queria bancar o chatão. Sendo assim tentei tirar proveito da situação. Andamos de limusine, bebemos coquetéis, jogamos um pouco e quando eu quis ficar um pouco mais na parte antiga da cidade (mais charmosa sem os edifícios e hotéis enormes) a galera me arrastou pruma balada no Bellagio Hotel. Definitivamente não é uma cidade para se ir sozinho!
Senti meio que a mesma coisa em Hollywood. Tudo muito artificial. Em algum momento sugeriram uma visita à Rodeo Drive, a Oscar Freire de Los Angeles onde a Julia Roberts fez as compras em "Uma Linda Mulher" e eu querendo visitar o centro da cidade fui logo dizendo "Pra que ver uma rua com produtos que nunca poderemos comprar?" ao que todo mundo respondeu com um silêncio resignado. No final passamos pela rua e fomos para Santa Monica, o destino final da Rota 66 e eu fiquei devendo uma visita ao centro de Los Angeles.
Queria ter ficado mais tempo em São Francisco, mas a paranoia de ver o máximo de coisas em menos tempo não me permitiu. A impressão que tive foi de uma Nova York mais preguiçosa, mais de buenas com a vida, tipo Rio pra São Paulo.
Com certeza os pontos altos foram as visitas ao Grand Canyon e ao Yosemite Valley, mas que ficaram resumidas em poucas horas de passeio e eu nem consegui dar um pulo na cachoeira do Yosemite, mas algumas fotos saíram bacanas. Em breve posto tudo na minha página do Flickr.
De qualquer modo, tirando os gastos inesperados (gorjetas para o guia e o motorista e passeios não inclusos no tour) a viagem foi até que positiva. Pelo menos posso dizer que conheci esses lugares e quando estiver numa roda de bar vou poder falar "Uma vez quando estava num barco em São Francisco..." só pra parecer mais descolado e viajado.

É isso! De volta à vida real! O curso de verão que eu iria fazer sobre diretores foi cancelado por falta de alunos então me matriculei num outro sobre História no cinema na década de setenta. A gente basicamente assiste e discute um filme todo dia baseando-se nas leituras e no contexto histórico. Nada grave! E daqui um mês começa a labuta brava! Que a força esteja comigo!

Muitos amigos reclamam que eu não tiro muitas fotos de turista então fiz um seleção de algumas da viagem pegando do cartão da câmera e dos álbuns alheios no Facebook! Não editei nem nada! Estão do jeito que foram tiradas! Aproveitem!

PS: Se você ainda não viu a versão em quadrinhos desse relato, clique aqui!

Eu de turista no Grand Canyon
Eu tentando cometer suicídio no Grand Canyon

Eu atrapalhando uma foto no Grand Canyon
Eu pedindo arrego em Las Vegas

Eu num buffet chinês no estilo "coma até morrer" chupando laranja pra ajudar na digestão (dica da minha mãe)

Num Outlet da Tommy Hilfiger lotado de turistas e produtos chineses
Eu e o grupo feliz na piscina do hotel (detalhe para a criançada ao fundo causando na nossa foto)

Autorretrato nos óculos do Niki (o austríaco que me arranjou o emprego na Inglaterra e consequentemente meu futuro chefe)

Eu esquentando a mulherada no barco na baía de São Francisco

Eu em Santa Monica fazendo a minha famosa dança do robô
Eu na calçada da fama junto com o Sr. Spock

Eu e a mulherada

Eu no Yosemite Valley tirando foto de tudo menos da porcaria da cachoeira

Eu em Las Vegas protestando ao não apontar para o mundo das ideias
E finalmente eu no glamour de Hollywood


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Do outro lado + Até breve!

Caros, amanhã parto para o outro lado dos Estados Unidos. Junto com meus queridos amigos intercambistas, voaremos para a Califórnia e lá faremos um tour de busão de uma semana pelos pontos turísticos mais manjados. É lá também que cada um seguirá seu rumo para seu país de origem enquanto o cidadão aqui volta para Richmond primeiro prum curso de verão sobre Truffaut, Fellini, Bresson, Howard Hawks e Tarantino (Êta, vida boa!) e depois troco de cadeira e começo a dar aulas de História em português para alunos de Ensino Médio até o meio de julho como falei no último post. Parto então para o velho continente pra lecionar mais um pouco por lá e só volto pro Brasil Baronil no começo de setembro se tudo correr como planejado.

Não tive tempo de editar novas fotos nem de escrever sobre o show da Feist em Nova York pois essa semana foi tensa! As provas finais foram tranquilas, mas o que pegou mesmo foi finalizar o documentário e um trabalho de pesquisa pra minha aula de Origens do Modernismo, mas como minha mãe sempre diz, no final tudo dá certo e mais uma vez a sabedoria materna acertou em cheio. No momento em que escrevo, meu roommate está me apressando para eu terminar de empacotar tudo para que possamos deixar o dormitório e entregar as chaves sem problemas. Estranhamente, minha mala parece menor do que quando cheguei, mas tenho certeza de que darei um jeito de encaixar tudo.

É isso! Coloco abaixo os links pro meu documentário finalizado e também as cenas deletadas.
O tema engloba a relação dos alunos de intercâmbio com a cultura americana e também entre eles.

Digam o que acham!
Infelizmente está tudo em inglês e além disso um monte de estrangeiro falando com sotaque pesado, mas nada grave!


 O documentário:


As cenas deletadas:


É isso! Assim que sair do dormitório amanhã, vou me desconectar geral e deixar facebook, e-mails e qualquer coisa eletrônica de lado por uma semana (nem vou levar meu computador pra não ter recaídas) e só vou curtir, tirar fotos e ver a banda passar!

Abraços e até breve!


Ouvindo "Mistério do Planeta" dos Novos Baianos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Adeus, América? Ainda não...

É verdade quando dizem que depois de quatro meses você já vai se acostumando à comida, às pessoas e ao lugar em que está vivendo e é verdade também quando dizem que é justamente nessa hora em que você se sente em casa é que chega a hora de voltar. Esse era meu plano pois as aulas acabam dia 12 de Maio, dai vou dar uma viajada e voltaria para o Brasil no começo de Junho. O que não estava nos planos é que dia 21 de Maio eu volto para a VCU para fazer um curso de verão sobre alguns diretores fundamentais na história do cinema que vai até dia 8 de Junho (aniversário da minha querida irmã Camila que costumava dividir o apartamento comigo em terras garoísticas). Mais fora dos planos ainda foi o emprego que arranjei aqui na universidade que vai durar entre o dia 21 de Junho até o dia 14 de Julho. A ideia é ensinar português com aulas de História para alunos de Ensino Médio que vão participar desse programa também de verão chamado Startalk Academy. Estou bastante empolgado pois além da experiência pessoal, acredito que isso fará um bem danado pro meu currículo. 
Até ai eu já estava super feliz e satisfeito até que encontrei um intercambista austríaco cujo os pais são donos de uma escola de inglês que proporciona cursos de verão na Inglaterra para a molecada da Áustria. Enquanto conversávamos ele mencionou que o programa precisa desesperadamente de professores homens independente da nacionalidade, contanto que tenham um inglês minimamente decente.  Foi assim que arranjei mais um emprego de verão na terra da Rainha que vai durar do dia dia primeiro até 18 de Agosto. Acho que não vai doer fazer um mochilão the flash pela Europa pra visitar alguns cantos e voltar correndo no começo de setembro pra terrinha. 
Estava guardando pra usar como despedida da terra do Tio Sam a clássica canção "Adeus, América" interpretada pelo João Gilberto que diz "Não posso mais! Que saudade do Brasil, ai que vontade que eu tenho de voltar. Adeus, América! Essa terra é muito boa, mas não posso ficar porque o samba mandou me chamar" mas agora que vou pra ilha de Shakespeare, a terra dos Beatles, o lar do bruxo mais famoso do mundo, a música não vai caber muito bem.

Pois bem... Continuou por aqui até o meio de Julho escrevendo, desenhando e fotografando minhas impressões e outras cositas más sempre que bater uma inspiração. Aliás, nesse final de semana volto pra New York pra ver um show da Feist e aproveito pra dar mais uma passeada pela cidade tão romantizada por alguns cineastas.
 
Vista de New York do topo do Rockfeller Center


Abraços e até breve!

Ouvindo The Beatles com "Get Back"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Segredos de lanchonete

Era dia, à tardinha, e eles se encontraram.
"Não sei se isso é certo..." ela disse.
"E por que veio?" ele replicou.
"Não sei... Acho que queria te ver."
"Então é certo?" ele perguntou.
"Claro que não!" respondeu quase sem deixar ele terminar.
Silêncio.
Ele quebrou.
"Deixa ser... Que nem naquele som dos Beatles!"
Pegou na mão dela que esboçou algum sorriso.
"Melhor não." resignou-se.
"Pessoa certa e hora errada, não é?" ele perguntou meio cabisbaixo.
"Acho que sim." resignou-se mais uma vez.
E se despediram antes que a noite caísse.


"registro de uma tarde perdida" por Mari Waechter
















Ouvindo "Aquellos Ojos Verdes" com Nat King Cole.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dia dos discos

Nesse sábado além de ser o dia do grande herói da nossa pátria é também o dia da Loja de Discos e a maioria das lojas dá descontos especiais para LPs novos e usados. A questão é que aqui em Richmond, por conta da conceituada School of Art a população hispster é de oito por metro quadrado (quase a mesma que a da minha querida Rua Augusta) então a cidade tem um bocado de lojas de vinis e nesse dia, ouvi dizer, rola um fervor entre os record lovers. Não tenho toca-discos nem nada, mas não consigo fugir de uma promoção de coisa velha. Um dia saí de um sebo da Rua Martins Fontes com dez LPs por um preço baixíssimo. Outro dia comprei outros três numa loja daqui cada um por um dólar (um de bossa nova perdido no meio dos de Jazz).
Lembrei que nessa semana, minha amiga Aline Zuliani postou no Facebook a notícia de que os Los Hermanos vão lançar a discografia deles em vinil. Indignada, ela perguntava aos internautas: "Quem tem um toca-discos?" e eu respondi que vinil ainda era de boa perto de um cara que eu vi vendendo a música dele numas fitas K7 depois de uma apresentação num bar aqui perto da VCU. 
Não seria K7 o cúmulo do "só ouve quem está afim de ouvir mesmo"?
Enfim, de qualquer modo minha amiga que me perdoe, mas eu não consigo perder uma promoção, nem que seja de vinis! Qualquer dia arranjo um toca-discos e ouviremos Los Hermanos numa tarde morna de Setembro tomando cerveja e vendo a banda passar, pode ser, Zu?
Nesse sábado, vou dar uma de Durval e cair no saudosismo!

John Cusack em "Alta Fidelidade" (2000) de Stephen Frears

Agora sim, abraços e bom final de semana a todos!

Ouvindo "Anti-Pioneer" do novo CD (ou LP?) da Feist.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudades, comida e saudades

Hoje uma brasileira me falou com seu mineiro sotaque "Você está com cara de que está com saudades do Brasil!" e eu nem lembro o que respondi mas sei que dei a boa e velha impressão de sim e não.
É claro que estou com saudades! Só de pensar no santo picadinho das quintas-feiras no restaurante Madrid ali na Caio Prado minhas lágrimas começam a inundar minha bomba de colesterol que eu chamo de prato. 
"Mas você só está comendo besteira?" é o que me perguntaram dia desses pela internet.
Lá vou eu com meu sim e não. O "bandeijão" aqui da VCU é chamado de "Shafer" e até oferece uma variedade básica de refeições. No começo, os alunos mais antigos que encontrei reclamavam da falta de opções enquanto eu me lambuzava nas fatias de pizza de pepperoni e engolia os hambúrgueres bem passados numa enorme grelha, afinal, uma vez dentro do refeitório, você pode comer e beber até que uma luz se abra no horizonte começando a chamar pelo seu nome.

Teto do Shafer Court Dining Center
"Essa galera precisa de cinco minutos de Bandejão da USP pra poder reclamar!" eu pensava julgando essa geração Europeia que só agora está sofrendo na pele as garras malignas do famigerado capitalismo, mas enfim, é inevitável que toda rotina gere certa fatiga e logo eu, o mais pé-rapado da turminha, comecei a reclamar quando percebia que em certos dias as opções menos piores seriam as tais bombas de gordura, mas vez ou outra aparece algo novo e como a camaradagem reina entre os alunos de intercâmbio, as mensagens no celular ou no facebook começam a pipocar "Aproveita que hoje tem frango no Shafer!" ou "Corre pro Shafer que hoje tem carne assada ao molho! Meio borrachuda, mas dá pra engolir!" Eu que não sou besta nem nada, levo sempre umas duas tupperwares na mochila e discretamente, depois de satisfeito, despejo salada num pote e qualquer outra coisa no outro. Se estiver carregando uma garrafa, dá-lhe suco de laranja pra mais tarde e dai economizo meus créditos que já estão acabando, afinal, dia 12 de Maio findam-se as aulas por aqui e no mesmo dia embarco para a Califórnia pra fazer um tour bem manjado pelos pontos turísticos de lá. Ainda fico um tempo hospedado na casa da família do meu colega de quarto mexicano. 
Desejem-me sorte!
Ainda tenho algumas novidades que talvez deixem alguns corações mais apertados pelas terras do Brasil de meu Deus (estou falando da minha mãe), mas ainda não tenho tudo confirmado, portanto deixo para explicar em post futuro.

Enquanto isso, fiquem com uma prévia do documentário que estou fazendo como exame final para uma de minhas aulas abordando o relacionamento dos alunos de intercâmbio entre eles e suas impressões da cultura norte-americana. Um dos tópicos: Culinária Americana!
Pirem no plano-sequência e na trilha sonora!



Abraços e boa semana!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aborto: crime ou escolha?

Abro a página da Folha e dou de cara com a notícia de que a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal votou em favor de que a gestante possa escolher abortar um feto anencéfalo. A notícia chamou minha atenção pois dia desses enquanto caminhava para uma de minhas aulas, deparei-me com um cartaz que registrava em letras vermelhas "Atenção: cenas fortes de genocídio à frente". Continuei meu caminho até topar com as tais cenas que eram na verdade montagens que associavam o aborto ao holocausto empenhado pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra. Tentei ligar uma coisa à outra no meu pobre cérebro, mas a resposta foi imediata: o ato não tem nada a ver com o fato. Mais à frente, uma garota levava em uma bandeja um pedaço de carne cinzenta ensanguentado que de perto lembrava um feto em formação que, segundo a garota, era mais ou menos o tamanho da criança no útero nos primeiros meses. Meio cínico que sou com qualquer bandeira levantada com muito fervor, seja ela a favor ou contra alguma coisa, continuei meu caminho sem que as "cenas fortes de genocídio" atrapalhassem o meu dia, mas o assunto voltou na mesa do bar umas noites depois já que o evento tomou conta da universidade e não passou despercebido. Alguns apontavam a ação como estúpida, outros discordavam do ato, mas admitiam criatividade e foi então que me perguntaram "O que você achou?" e eu que estava contente com meu copo de cerveja e minha conversa banal com a garota do meu lado dei aquela resposta que me levou direto ao topo do muro "Prefiro não discutir esses assuntos polêmicos!" mas algumas figuras que me conhecem melhor soltaram "Você fala isso por que é a favor de abortar, mas não quer causar!" e eu ri dizendo que só responderia na frente dos meus advogados. Voltei pro apartamento junto com meu colega de quarto mexicano e acabei soltando "Nada a ver relacionar o holocausto com aborto!" e ele respondeu um sim meio sério. Não queria cair na discussão naquela hora, mas ele acabou dizendo que se há fecundação então há vida e eu me joguei pra cima do muro de novo pra evitar conflitos.
A questão é que dificilmente me posiciono aguerridamente à qualquer opinião, o que não significa que aceito tudo que me falam, aliás, nunca tomo nada como verdade absoluta pois qualquer verdade é construída socialmente pelo seu meio (inclusive isso que acabei de falar) portanto eu compreendo alguém que discorda do aborto por questões religiosas afinal a fé e tantos outros conceitos são martelados em nossas cabeças desde que nascemos, em especial a doutrina judaico-cristã que molda os caminhos do Ocidente desde os tempos mais primórdios. Desse modo, crença não é sinônimo de ignorância como muitas pessoas contra o aborto alegam assumindo-se especialmente inteligentes pelo fato de não seguirem qualquer religião adotando um posicionamento niilista que no final carrega tantas convicções cegas quanto qualquer crença religiosa, logo fanatismo é o posicionamento que me irrita. Aquele que tenta vencer no grito, seja de um lado ou de outro. No final, parece que o exagero serve como um calço para o argumento que está faltando. E dai eu volto para o assunto inicial desse texto. Aqueles que são contra o aborto de um feto anencéfalo alegam que apesar da falta do cérebro, o ser em formação possui uma "alma" que deve ser preservada enquanto que quem defende o aborto alega que a ausência do cérebro indica a ausência de uma consciência, portanto, não há vida. Ora, ambas as teorias baseiam-se em argumentos retóricos pautados por meras observações empíricas que tiveram que ser debatidas por oito anos dentro do governo até que se chegasse à conclusão de que cabe aos progenitores a decisão de manter ou não a gravidez. O Estado não está sumariamente abortando todos os fetos anencéfalos, mas sim dando o poder de escolha às mulheres que carregam seres nessas condições.
Sendo assim, acredito que eventualmente o aborto será descriminalizado no Brasil e essa foi só a primeira etapa de um longo processo. Espero também que isso venha acompanhado de campanhas contraceptivas para que aborto não vire festa e as pessoas comecem a achar que gravidez é algo fácil de ser solucionado. Foi por isso que me abstive na conversa de bar pois em assuntos polêmicos, parece que você deve sempre seguir o sistema binário de dizer sim ou não às ideias e nunca tentar propôr soluções mais trabalhadas que vão além de crenças e convicções rasas. Como não disse sim nem não, fui pra cima do muro como um gato preguiçoso que finge não estar atento aos ruídos da madrugada e por lá fiquei.

Placa em apartamento de estudantes em Richmond, capital da Virginia que recentemente recebeu restrições contra o aborto.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Aleatoriedades

Hoje quero brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

Quero pular do ponto mais alto
e cavar o poço mais fundo

quero você, você, você e você
quer ouvir sim, não e talvez
quero dizer
quero você

hoje acordei com sono
e o Sol me fez levantar
o vento me fez acordar
mas eu andei pelo mundo
e vi que era triste
e vi que não tinha sentido em:
brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

então eu voltei pra cama


**


Ouvindo a versão de "Autumn Leaves" de Miles Davis e John Coltrane. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tinta e pele

"E essa?" ele perguntou.
"Essa eu fiz quando tinha uns dezessete. Por impulso mesmo." ela respondeu.
"É... Dá pra ver!" ele brincou.
"Acho feia, mas ainda assim representa algo pra mim." ela explicou.
"E essa? Parece recente!" ele apontou.
"É, fiz no ano passado. O jeito que ela circula a antiga me faz lembrar que amadureci."
"Precisa lembrar sempre disso?" ele perguntou levantando as sobrancelhas.
"Eu preciso!" ela respondeu com um sorriso encabulado.
"Isso diz muito sobre você!" ele disse e tomou um gole do café.
"Você não tem nenhuma?" ela disse levantando o braço dele em tom de brincadeira.
"Não!"ele riu "Acho que tenho outros métodos para perceber que amadureci."
"Por exemplo?" ela inquiriu.
"Não sei... Lembrando das coisas! Das merdas que fiz, sei lá! Não fazer de novo!" ele disse meio incomodado.
"Eu fiz muita coisa errada..." ela disse levando as duas mãos ao queixo e o olhar pra qualquer lugar menos ali.
"Pelo menos você tem onde lembrar! Eu corro o risco de fazer tudo de novo..." ele disse olhando nos olhos dela que lentamente voltavam.
"É..." sem que ele protestasse, ela roubou o docinho que vinha com o café dele "Você devia fazer uma..." ela disse.
"Você acha?" ele perguntou com um sorriso.
"É... A mulherada adora!" ela brincou e ele gargalhou.
"Não quero sentar num Café daqui dez anos dizendo que me arrependi!" ele disse.
Ela riu desconcertada. Ele tentou concertar:
"Não foi o que quis dizer!"
"Eu entendo! Não se preocupe!" ela o tranquilizou.
"Só não é meu estilo, entende?" 
"Eu sei!" ela sorriu.
"Eu faria coisas terríveis! Experimentaria de tudo! Acredite!"
Ela fez que sim com a cabeça. Ele continuou:
"Dai pra cravar uma coisa em minha pele pra sempre é outra coisa!"
"Eu te entendo! Não quero te convencer nem nada."
"Eu sei! O que eu quero dizer é que daqui um tempo eu já não serei mais o mesmo, daqui dez, cinco, dois anos. Quando a gente se despedir eu já serei outro, entende? E você também."
"Verdade..." ela disse pensativa.
"De qualquer modo eu admiro sua coragem! Cada uma delas diz uma coisa sobre você e todas dizem outra coisa em conjunto. Eu acho bonito. E acho mais bonito ainda porque não foi uma ou duas com uma frase em latim que a galera faz só pra institucionalizar a juventude ou rebeldia repreendida, você me entende? Elas são parte de você e de algum modo elas são você!"
Ela ficou um tempo em silêncio.
"Nunca tinha pensando por esse lado... Meu pai não ligou da primeira, mas quando viu minhas costas ele quis me matar, mas eu já estava prestes a sair de casa então foi tranquilo. Dai as outras foram vindo com o tempo."
"Você quer fazer outras?" ele perguntou.
"Talvez! Não agora, mas vai saber da minha vida?" ela disse dando de ombros exageradamente.
"Vai saber?" ele disse repetindo o gesto.
Eles riram e uma música ao fundo fez o assunto mudar.

Angelina Jolie por Annie Leibovitz
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Ouvindo "Tatuagem" de Chico Buarque.